Círculos de Paz

Os Círculos de Construção de Paz representam uma das metodologias mais difundidas dentre as práticas da Justiça Restaurativa. Derivados de tradições ancestrais, e utilizados como metodologia estruturada de diálogo aplicada à resolução de crimes e conflitos, sua aplicação vem-se expandindo no mundo, alinhadas e avançando junto com a difusão das concepções transformadoras propostas para esse novo modelo de Justiça.

Mas os Círculos de Construção de Paz vão ainda além. Embora talhada para facilitar a comunicação entre as pessoas em situações extremas envolvendo crimes e violências, a metodologia se mostra ainda mais funcional para facilitar diálogos em situações não conflituosas. Em ambas as pontas, preserva a virtude de não perder a simplicidade quando aplicada a situações de maior tensionamento, nem perde a profundidade quando aplicada a situações da convivência cotidiana.

Em razão dessa versatilidade, a metodologia se mostra funcional tanto aplicada ao tratamento de conflitos e problemas difíceis, quanto na sua prevenção, atuando na facilitação de diálogos que geram fortalecimento de vínculos entre os mais variados grupos de convivência.

Os Círculos como metodologia de formação ativa

Os Círculos de Construção de Paz são mais do que uma ferramenta de prevenção e tratamento de conflitos. Eles também podem ser vistos como estratégia de aprendizagem da Cultura de Paz. Uma pedagogia ativa, dinâmica, aplicada pelos próprios interessados, sem intermediários e em tempo real, aos fatos da sua própria vida, atendendo às suas próprias necessidades. Vistos assim, os Círculos podem ser compreendidos então não apenas como “práticas restaurativas”, mas como um processo de aprendizagem da cultura da paz colocada em prática.

Incorporando um novo campo de habilidades, a aprendizagem da Justiça Restaurativa e da Cultura da Paz inicia pela prática, numa autêntica expressão das metodologias pedagógicas ativas, que são os correspondentes pedagógicos do mesmo modelo de horizontalidade proposto pela Justiça Restaurativa no campo da resolução de conflitos.

Quem se interesse, encontrará referenciais teóricos para aprofundar a compreensão desse processo. Do contrário, a teoria é dispensável para que a experiência funcione, se expanda, e gere seus primeiros resultados.

Falando nisso, segundo a Prof. Kay Pranis, os Círculos menos complexos podem ser facilitados independentemente de treinamento específico. Bastaria uma leitura atenta e refletida do Guia do Facilitador. Porém, por ser uma metodologia vivencial, participar de uma formação costuma ser de grande proveito e imprescindível para um segundo passo, o de se tornar um facilitador de Círculos Conflitivos. Abaixo, você confere mais sobre as duas perspectivas:

Círculos Não Conflitivos de Construção de Paz

Para facilitar os Círculos Não Conflitivos, ou menos complexos (roteiros dos módulos 1 a 10 do Manual), a Escola da AJURIS e o Instituto Terre des hommes costumam organizar formações, com 20 horas-aula presenciais, e sempre que possível acompanhados de atividades de supervisão para orientar as práticas. É a denominada Formação Básica, que forma Facilitadores de Paz.

Círculos Conflitivos de Construção de Paz

Para os Círculos Conflitivos, ou mais complexos (roteiros dos módulos 11 a 13 do Manual), o treinamento costuma ser aprofundado através de uma formação complementar, com outras 24 a 40 horas presenciais, sendo também recomendável o posterior estágio prático supervisionado. É a denominada Formação Avançada, que forma Facilitadores Restaurativos.

Círculos de Paz e o fortalecimento da comunidade escolar

Aprender a facilitar círculos em círculo, e através deles promover a multiplicação das práticas circulares é um objetivo pedagógico de amplo espectro que visa à construção de novas habilidades para os que convivem no ambiente escolar – estratégia que enfatiza o “aprender a ser”, e o “aprender a conviver”.

Através dessa multiplicação de possibilidades de incidência, a própria comunidade estará vivenciando a transposição de um marco da cultura do conflito para a cultura de paz: coesionando equipes de trabalho, fortalecendo vínculos familiares, construindo senso de comunidade, enfrentando conflitos, resolvendo infrações, ou reintegrando excluídos.

Justiça Restaurativa, Círculos, Educação em Valores e Cultura de Paz

Inúmeros têm sido os estudos sobre crime e violência, suas causas, fatores de risco e fatores de proteção, segmentações de perfis de vulnerabilidade, recortes étnicos, socioeconômicos, culturais. Muito conhecimento tem sido gerado, mas a poucas soluções de efetividade prática eles têm conduzido, diante do complexo e caótico quadro representada pela propagação da indiferença, da intolerância e da violência nesse princípio do Século XXI.

Possivelmente porque poucas são as estratégias operacionais associadas aos diversos campos de estudo e transmissão de conhecimento. O conhecimento sobre Justiça Restaurativa e sua visão crítica dos sistemas de controle e estabilização da convivência social, ao contrário, emerge da prática e se apresenta sempre indissociado dela.

A Justiça Restaurativa está baseada no reequacionamento da abordagem de crimes e conflitos. Ao substituir culpa por responsabilidade, perseguições por encontros, imposições por diálogos, castigos por reparação de danos, coerção por coesionamento, esse novo enfoque oferece soluções inovadoras. Por isso vem sendo considerado paradigmático não apenas como modelo de Justiça, mas como modelo mental que permite repensar o conjunto das políticas relacionadas à promoção da paz social.

Justiça Restaurativa é uma Justiça fundada em valores: responsabilidade, honestidade, solidariedade, empoderamento, interconexão… Valores que somente se incorporam e se convertem em atitudes e só passam a embasar comportamentos a partir de insights experiências. Por isso, esse novo paradigma pacificador somente se transmite eficientemente através de uma combinação de atitudes exemplares, narrativas de histórias que geram pertencimento e sentido e, principalmente, contatos vivenciais com a metodologia aplicada a situações concretas.

Assim, situações de conflito tornam-se oportunidades efetivas de aprendizagem, onde toda a comunidade envolvida aprende, como seguindo um modelo de “educação permanente” e de “aprendizagem em serviço” para a cultura de paz, aplicado a toda uma comunidade de aprendentes.

Contatos

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